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E. E. Cummings – Nalgum lugar em que eu nunca estive

E. E. Cummings – Nalgum lugar em que eu nunca estive

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

( E. E. Cummings, tradução: Augusto de Campos )

*

somewhere i have never travelled, gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

( E. E. Cummings )

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Leia mais poemas de grandes poetas

OBS.: Zeca Baleiro musicou lindamente este poema, confira.

Fabio Rocha

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Rabindranath Tagore – Poemas

Rabindranath Tagore – Poemas Selecionados

“Carrega de ouro as asas do pássaro e ele nunca mais voará pelo céu.” (Rabindranath Tagore)

*

Aceite-me

Aceite-me, querido Deus, aceite-me por um momento.

Deixe os dias órfãos gastos sem Você serem esquecidos.

Alongue este breve instante por Seu amplo colo, mantendo-o sob Sua luz.

Vaguei atrás de vozes que me atraíram… deu em nada.

Permita-me, agora, sentar em paz e escutar Suas palavras no espírito de meu silêncio.

Não mostre Suas costas aos segredos obscuros do meu coração: queime-os até que Seu fogo os ilumine.

(Rabindranath Tagore)
(Poema digitado e conferido por mim mesmo no Google Books, do livro “O Coração de Deus: Poemas Místicos de Tagore Rabindranath” – Escolhidos e editados por Herbert F. Vetter. Tradução de Alberto Pucheu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. p. 21)

*

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Libertação

Para mim, libertação não está na renúncia. Sinto o abraço da liberdade em milhares de enlaces do deleite.

Você sempre me serve a dose fresca do Teu vinho encorpado e aromático, enchendo esta taça terrena até a borda.

Com Sua chama, meu mundo acenderá centenas de velas diferentes e as depositará no altar de Seu templo.

Não, jamais fecharei as portas dos meus sentidos – os deleites da visão, do tato e da audição revelarão Seu deleite.

Sim, minhas ilusões arderão no regozijo iluminado e a maturidade de meus desejos dará os frutos do amor.

(Rabindranath Tagore)
(Poema digitado e conferido por mim mesmo no Google Books, do livro “O Coração de Deus: Poemas Místicos de Tagore Rabindranath” – Escolhidos e editados por Herbert F. Vetter. Tradução de Alberto Pucheu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. p. 30)

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Olhos cor de céu (trecho) – Bukowski

Olhos cor de céu (trecho)

(…) confessou que andava farto das reuniões sempre iguais e sem graça da pretensa POESIA NOVA. a poesia continua sendo a maior picaretagem de esnobes no terreno das Artes, com panelinhas literárias lutando por  prestígio. ainda acho que o maior antro de pedantes inventado até hoje foi o velho grupo da MONTANHA NEGRA. e Creeley continua sendo temido, dentro e fora das universidades – temido e admirado -, mais que qualquer outro poeta. depois temos os acadêmicos, que, como Creeley, escrevem tudo certinho. no fundo, a poesia de maior aceitação hoje em dia ocupa uma redoma de vidro, vistosa e escorregadia, e aquecida pelo sol ali dentro existe uma junção de palavras formando um todo meio metálico e desumano ou um ângulo semiescondido. é uma poesia para milionários e gordos desocupados, e portanto sempre conta com mecenas e sobrevive, pois o segredo consiste em reunir um bando de eleitos e o resto que se foda. mas é uma poesia sem vida, chatérrima, a tal ponto que a sua insipidez é interpretada como possuindo um significado oculto – o significado está oculto, evidentemente, e de maneira tão perfeita que é o mesmo que se não existisse. mas se VOCÊ não consegue descobri-lo, é por falta de alma, sensibilidade e não sei mais o quê, portanto TRATE DE DESCOBRIR SENÃO VAI SE SENTIR HUMILHADO. e se por acaso não descobrir, então, BICO CALADO.

a todas essas, cada 2 ou 3 anos, algum acadêmico, querendo garantir seu lugar na hierarquia universitária (e se você pensa que o Vietnã é um inferno, precisa ver o que acontece entre essas chamadas sumidades em matéria de guerras de intriga e poder dentro de seus próprios cubículos), apresenta a mesma velha antologia de poemas sintéticos e sem culhões com o rótulo de A NOVA POESIA ou A NOVÍSSIMA POESIA, que sempre vem a dar no mesmo baralho de cartas marcadas. (…)

(Charles Bukowski)
(conferido e digitado por mim mesmo, do livro Fabulário geral do delírio cotidiano: ereções, ejaculações e exibicionismos: parte II – tradução de Milton Persson – Porto Alegre: L&PM:2013. ps. 212 e 213)

Charles-Bukowski-9230860-1-402Leia mais Bukowski

Fabio Rocha

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Elegia 1938 (com vídeo com Caetano Veloso)

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade )
(Poema digitado e conferido por mim mesmo, publicado em Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 107)

drummond

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