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Poema Se (Professor Hermógenes)

Poema Se (Professor Hermógenes)

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia…

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser…

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo…
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou…

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio…

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu…

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia…

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim…

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito…

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz…

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou…

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

( Professor Hermógenes )
(poema conferido no Instituto Hermógenes)

Leia mais poemas de grandes poetas

hermogenes

Fabio Rocha

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Porque poesia não vende

Porque poesia não vende

(Postado originalmente em 18 de junho de 2012.) 

É um círculo vicioso:

  • O Brasil produz leitores “de menos”, em relação à sua produção editorial. Logo, o problema aqui é de leitura em geral, mas piorado em relação a textos mais complexos;
  • Temos mais editoras que livrarias, logo, mais livros do que lugar para vendê-los;
  • As poucas livrarias escondem a seção de poesia (conforme foto abaixo), justamente por vender pouco, mantendo o círculo vicioso.

Veja a foto que tirei na FNAC do Barra Shopping, após ter que perguntar a um atendente onde ficava a parte de poesia, por não conseguir achá-la sozinho. Note a altura da prateleira (a mais perto do chão era a de poesia):

porque-poesia-nao-vendePoesia? Perto do chão e sem plaquinha.
Rastejando, daria pra ler os títulos.
É mesmo uma guerra…

 

Isso, a meu ver, agrava o  de fato de os sites mais visitados sobre poesia serem um lixo. O Google dominou a internet e simplesmente não consegue selecionar direito sites com conteúdo relevante e sem erros para as primeiras posições das keywords mais procuradas desse universo: poesia, poesias, poemas, versos etc. Assim, quem busca por poesia recebe dos sites de busca um tratamento ainda pior do que nas livrarias: textos alterados e falsas autorias. Isso me estimula a seguir trabalhando na Magia da Poesia com cuidado cada vez maior. Muita gente descobre diversos poetas e a própria poesia através desse site! (Aliás, se quiser contribuir com este projeto, clique aqui.)

OBS.: Se você é escritor, principalmente se for poeta, recomendo acabar com alguns dos intermediários entre você e seus leitores fazendo um blog ou site. O blogger acho o menos complicado pra se começar. Outras dicas nesse post.

OBS. 2: Em 2013, o livro com a obra completa do Leminski ultrapassou até o “50 tons de cinza” nas listas de “mais vendidos”, mostrando que poesia boa vende sim! Basta sair das prateleiras escondidas, com uma editora com boa distribuição que invista em uma boa campanha de Marketing.

OBS. 3: Em 2014 lancei outro livro com meus melhores poemas dos últimos 10 anos, pela editora Patuá. Para saber mais, clique aqui. Ajude poesia a vender comprando um exemplar online (sem sofrimento nas livrarias). ;)

Fabio Rocha

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Thich Nhat Hanh – Poema sobre a morte – Este corpo não sou eu

Thich Nhat Hanh – Este corpo não sou eu

Este corpo não sou eu; Eu não estou apegado a este corpo,
Eu sou vida sem limites,
Eu nunca cheguei a nascer e eu nunca cheguei a morrer.
Logo ali, o vasto oceano e o céu com muitas galáxias
Todas se manifestam a partir da consciência primordial.
Desde o tempo sem início eu sempre fui livre.
Nascimento e morte são apenas uma porta por onde nós entramos e saímos.
Nascimento e morte são apenas um jogo de esconde-esconde.
Então sorria para mim e pegue a minha mão e me dê adeus.
Amanhã devemos nos encontrar novamente, ou mesmo antes.
Nós devemos sempre nos encontrar novamente na verdadeira fonte,
Sempre nos reencontrando na miríade de caminhos da vida.

Thich Nhat Hanh - No Death, No Fear: comforting wisdom for live. Riverhead Books, New York: 2002. p. 186)

* Texto original:

This body is not me; I am not caught in this body,
I am life without boundaries,
I have never been born and I have never died.
Over there the wide ocean and the sky with many galaxies
All manifests from the basis of consciousness.
Since beginningless time I have always been free.
Birth and death are only a door through which we go in and out.
Birth and death are only a game of hide-and-seek.
So smile to me and take my hand and wave good-bye.
Tomorrow we shall meet again or even before.
We shall always be meeting again at the true source,
Always meeting again on the myriad paths of life.

( Thich Nhat Hanh – No Death, No Fear: comforting wisdom for live. Riverhead Books, New York: 2002. p. 186)

poema-sobre-morte-thich-nhat-hanh

( Thich Nhat Hanh – No Death, No Fear: comforting wisdom for live. Riverhead Books, New York: 2002. p. 186)

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Poema de Natal – Vinícius de Moraes (com vídeo)

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

( Vinícius de Moraes, Rio de Janeiro, 1946 )
(conferido com o filme Vinícius e no site oficial do poeta)


Vídeo do Poema de Natal com Camila Morgado e Ricardo Blat

Leia também o poema Receita de Ano Novo de Drummond

Leia mais Vinícius de Moraes

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