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Amar – Carlos Drummond de Andrade (com vídeos)

Amar – Carlos Drummond de Andrade (com vídeos)

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
 e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

( Carlos Drummond de Andrade )
(Poema digitado e conferido por mim mesmo, publicado em  Antologia Poética – 12a edição - Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, ps. 163 e 164)  

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Fabio Rocha

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O Berço e o Terremoto – Mario Quintana

O Berço e o Terremoto – Mario Quintana

berço

Os versos, em geral, são versos de embalar, como eu às vezes os tenho feito, não sei se por simples complacência… ou pura piedade.

Contudo, os verdadeiros versos não são para embalar – mas para abalar.

Mesmo a mais simples canção, quando a canta um García Lorca, desperta-te a alma para um mundo de espanto.

Mario Quintana )
(Poema conferido e digitado por mim mesmo, do livro Caderno H, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 334)

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Confidência do Itabirano – Drummond – Poema corrigido

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
[esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;]*
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Carlos Drummond de Andrade )
(Poema digitado e conferido por mim mesmo, publicado em Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, ps. 36 e 37 *Verso adicionado após pesquisas recentes (ver foto abaixo) e confirmado no vídeo também abaixo, com o poema lido pelo próprio poeta.

Conf. Itab. novo 001

Versão do poema mais recente, com verso que falta na obra em livros antigos – “esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;” – O neto do poeta, Pedro Drummond, encontrou o original – inclusive com a letra de Drummond – onde consta o verso que faltava. A nova editora de CDA, a Companhia das Letras publicou o poema com a correção. O livro com o poema completo da foto e correto é “Nova Reunião – vol. 1 – O Brejo das almas”. Contribuição da leitora Dadá Lacerda, autora da Pesquisa Histórica do Museu de Território Caminhos Drummondianos, de Itabira.

confidencia-do-itabirano

Fotografia de Antonio Fabiano sobre versão diferente do poema de Carlos Drummond de Andrade no seu Memorial de Itabira (MG).

Fabio Rocha

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Mãos Dadas

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

( Carlos Drummond de Andrade )
(Poema digitado e conferido por mim mesmo Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 108)

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Fabio Rocha

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