- uma torre azul para os suicidas. Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores, qualquer coisa de anjo que perdeu as asas. É preciso construir-lhes um túnel - um túnel sem fim e sem saída e onde um trem viajasse eternamente como uma nave em alto-mar perdida.
É preciso construir uma torre… É preciso construir um túnel… É preciso morrer de puro, puro amor!…
( Mario Quintana ) (Poema do livro Baú de Espantos, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 587)
Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000, é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo, publicados em diversas revistas literárias, bem como na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009). (saiba +)
Carlos Soulié do Amaral foi vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Poesia, no ano de 1966, com apenas 22 anos de idade. Também recebeu em 1967 o Prêmio Imprensa, outorgado pela Câmara Brasileira do Livro. Segue um poema dele enviado com referências bibliográfica pela leitora Ana Luiza, para contribuir com este nosso projeto de recuperação de nosso patrimônio cultural.
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SONETO DA ALEGRIA
De nada, ou quase nada, uma alegria Criar e permitir que nos aqueça E acenda o vôo* e a voz da fantasia Provando-se à exaustão adversa e avessa.
Uma alegria que dê fogo à fria E brumosa jornada e não se esqueça De transbordar, cravando-se travessa E incontida, no coração do dia.
E que por ela os nossos corações Se deixem, sem constrangimento, ser E fluir, como fluem as canções,
Como fluem os rios, sem saber Nem indagar as mil ou mais razões De tudo quanto vive e vai morrer.
Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000, é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo, publicados em diversas revistas literárias, bem como na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009). (saiba +)
The art of losing isn’t hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster of lost door keys, the hour badly spent. The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster: places, and names, and where it was you meant to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother’s watch. And look! my last, or next-to-last, of three loved houses went. The art of losing isn’t hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster, some realms I owned, two rivers, a continent. I miss them, but it wasn’t a disaster.
Even losing you (the joking voice, a gesture I love) I shan’t have lied. It’s evident the art of losing’s not too hard to master though it may look like (Write it!) like disaster.
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Uma certa arte – Elizabeth Bishop (tradução de Nelson Ascher)
A arte da perda é fácil de estudar: a perda, a tantas coisas, é latente que perdê-las nem chega a ser azar.
Perde algo a cada dia. Deixa estar: percam-se a chave, o tempo inutilmente. A arte da perda é fácil de abarcar.
Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar, destino que talvez tinhas em mente para a viagem. Nem isto é mesmo azar.
Perdi o relógio de mamãe. E um lar dos três que tive, o (quase) mais recente. A arte da perda é fácil de apurar.
Duas cidades lindas. Mais: um par de rios, uns reinos meus, um continente. Perdi-os, mas não foi um grande azar.
Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar que eu amo), isso tampouco me desmente. A arte da perda é fácil, apesar de parecer (Anota!) um grande azar.
(Elizabeth Bishop) (Do livro ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.)
OBS.: Poema achado aqui no blog do Antonio Cícero, depois da dica da leitora Vitória Lima.
Fabio Rocha
Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000, é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo, publicados em diversas revistas literárias, bem como na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009). (saiba +)
(Estava me sentindo um pouco agoniado de publicar só poemas de amor aqui no dia dos namorados, talvez reforçando o padrão de idealização do romantismo que faz tanta gente sofrer com esse dia. Ainda mais agora que passamos de 25.000 cadastrados para receber as atualizações da Magia da Poesia por e-mail. Não tem nada a ver com poesia, é prosa, mas espero que possa ser de alguma ajuda para os tantos que sofrem nesta data e com o amor romântico em geral.) Atualização de 2017: este vídeo sobre traição é imperdível.
Já parou pra perceber o quanto é sua mente que cria as experiências? Da mesma forma que você olha um tijolo e nem percebe que esse conceito – tijolo – surge no automático. Sem notar que ele é feito de barro, a mesma matéria que compõe um vaso, por exemplo. Sem nem se perguntar o que faz daquele barro um tijolo. Instantaneamente – a gente olha o vaso e vê vaso, olha o tijolo e vê tijolo. Não notamos que nós é que construímos na mente os objetos instantaneamente através de nossos hábitos.
Agora use essa forma de perceber para aquela dorzinha no peito que aparece no dia dos namorados, principalmente para os que estão solteiros. Não fuja, não se distraia. Encare. Por que as relações passadas parecem derrotas por terem acabado? Vamos olhar mais vagarosamente isso, saindo do instantâneo. Não seria o mundo uma dança de inícios e fins, em tudo? Então por que isso dói? Por causa da porcaria do mito do amor romântico eterno, sendo que – na prática – tudo acaba. E sabendo disso, podemos aproveitar a relação muito mais, enquanto durar. Mas, como somos programados desde cedo a entrar no padrão de relacionamento “felizes para sempre”, associamos cada término a uma derrota pessoal. E aí dói.
Ao mesmo tempo, podemos notar que, associada a essa dor, há um apego ao ser que “perdemos”. Novamente de forma automática podemos nos bombardear com pensamentos negativos do tipo cultuado em músicas românticas: “será que você ainda pensa em mim”, “se um outro cabeludo aparecer em sua vida”, “a falta que você me faz”, “é impossível ser feliz sozinho”, “eu quero só você”, e trocentas mil formas de mimimis doloridos. Somos criados para ter esse apego e há uma vasta produção cultural (filmes, músicas, livros…) que reforça e cultua isso ao longo de toda a nossa vida. Sem falar nas propagandas na TV perto do dia dos namorados. Esse vídeo do Porta dos Fundos é bem esclarecedor sobre o fenômeno que criamos e no qual acreditamos constantemente – o amor romântico, a alma gêmea, o meteoro da paixão etc.
Para completar, tem os amigos namorando que parecem tão felizes no facebook, expondo seus presentes e sorrisos, aparentemente alheios aos problemas filosóficos do consumismo e do amor romântico. Porém, isso é facebook… Não há festa.
“A ideia de amor apaixonado, romântico, que emergiu no Ocidente durante o último milênio é uma de nossas heranças culturais mais destrutivas.
Isso porque sua principal aspiração – a descoberta de uma alma gêmea – é praticamente inatingível. Podemos passar anos à procura dessa pessoa elusiva que satisfará todas as nossas necessidades emocionais e nossos desejos sexuais, que nos proporcionará amizade e autoconfiança, conforto e risos, estimulará nossas mentes e compartilhará nossos sonhos. Imaginamos que existe alguém no éter amoroso que é nossa outra metade perdida, e que nos fará sentir completos, bastando apenas que possamos fundir nosso ser com o dele na sublime união do amor romântico.
Nossas esperanças são alimentadas por uma indústria de filmes românticos de Hollywood e um excesso de ficção barata difundindo essa mitologia.”
—Roman Krznaric
Se percebermos como são vazias essas construções que nós mesmo fazemos e que doem, podemos sentir de outra forma. Podemos ver a beleza do que trocamos com as pessoas enquanto durou. Podemos desejar que – como seres que buscam a felicidade – as ex e os ex sejam felizes. Podemos ser agradecidos pelo tempo bom que passamos juntos. Podemos nos alegrar ao perceber que tudo continua, que seguimos e que a felicidade verdadeira não depende de outra pessoa da forma como o romantismo ensina. Basta parar um pouco e apurar o olhar.
Resumindo, podemos tentar nos lembrar disso sempre (já sabemos disso racionalmente), sobre relacionamentos:
1 – Não vai durar pra sempre (nós, no mínimo, morremos!) – aproveite cada segundo;
2 – A felicidade não vem do outro (é possível ser feliz sozinho sim!);
3 – Quanto mais nos agarramos, quanto mais paixão, mais sofrimento. Quanto menos possessividade e autocentramento, melhor. Em resumo, ”Dê a quem você ama: asas para voar, raízes para ficar e motivos para voltar.” (Dalai Lama)
OBS.: Isso também vale pra ex-amigos, toda forma de relação. Não é algo só com você. Tudo flui: não há derrota em términos e afastamentos. Não é preciso sentir de uma forma dolorosa, se você conseguir olhar com mais sabedoria. (Isso não significa que você deva aceitar tudo das pessoas nem mentir para si mesmo que não há dor num caso mais horroroso de relação. Se alguém te fez algo péssimo e você não consegue ver de outra forma, encare como um motivo para se alegrar pelo afastamento – tendo compaixão consigo mesmo. Inclusive, se for o caso de relação abusiva, denuncie pras autoridades, você estará prestando um serviço para a sociedade, pra você mesmo e para a própria pessoa.)
OBS.2: Veja também esse vídeo genial sobre amor romântico e amor genuíno, que passou de 2 milhões de visualizações aqui no youtube.
É de Jetsunma Tenzin Palmo, que passou 12 anos meditando de forma isolada em uma caverna. Eu acho tão importante que gosto de revê-lo de tempos em tempos. Liguem as legendas em Português abaixo, à direita. (Aqui deixei um resumo de palestra de Gustavo Gitti e outras visões sobre o tema no Budismo). Outro vídeo indicado é do Thich Nhat Hanh, aqui. Outro. Outro. Outro. Outro. E adoro esta metáfora poética:
1. Ando pela rua. Há um buraco fundo na calçada. Eu caio… Estou perdido… Sem esperança. Não é culpa minha. Leva uma eternidade para encontrar a saída.
2. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Mas finjo não vê-lo. Caio nele de novo. Não posso acreditar que estou no mesmo lugar. Mas não é culpa minha. Ainda assim leva um tempão para sair.
3. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Vejo que ele ali está. Ainda assim caio… É um hábito. Meus olhos se abrem. Sei onde estou. É minha culpa. Saio imediatamente.
4. Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Dou a volta.
5. Ando por outra rua.
Texto extraído de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche (Ed. Talento/Palas Athena)
OBS. 3: Amor livre ou poliamor não me parece ser a solução para este problema, pela minha própria experiência com ele. Porque acaba sendo outro pacto pensando primeiro em você mesmo, de forma autocentrada, apenas outra forma de controle sobre o outro. Ou uma liberdade compulsória imposta ao outro baseada em egoísmo. Ou uma forma de amenizar o medo da perda, mas sem efetivamente acabar com a chance da perda.
Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000, é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo, publicados em diversas revistas literárias, bem como na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009). (saiba +)
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