Paulo Leminski – Poemas Originais Selecionados: Poesia Pequena Enorme
Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
( Paulo Leminski )
*
Tarde de vento.
Até as árvores
querem vir para dentro.
( Paulo Leminski )
*
Se
se
nem
for
terra
se
trans
for
mar
( Paulo Leminski )
*
A noite me pinga
uma estrela no olho
e passa.
( Paulo Leminski )
*
Incenso fosse música
isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
( Paulo Leminski )
*
nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
( Paulo Leminski )
*
Amor bastante
quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
( Paulo Leminski )
*
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
( Paulo Leminski )
*
Parada cardíaca
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.
( Paulo Leminski )
*
Atraso Pontual
Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?
( Paulo Leminski )
*
Desencontrários
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
( Paulo Leminski )
*
Razão de Ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
( Paulo Leminski )
*
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
( Paulo Leminski )
*
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino
( Paulo Leminski )
*
a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece
( Paulo Leminski )
*
pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
( Paulo Leminski )
*
noite alta lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa
( Paulo Leminski )
*
Inverno
É tudo o que sinto
Viver
É sucinto
( Paulo Leminski )
*
tudo claro
ainda não era o dia
era apenas o raio
( Paulo Leminski )
*
rio do mistério
que seria de mim
se me levassem a sério?
( Paulo Leminski )
*
Sem Budismo
Poema que é bom
acaba zero a zero.
Acaba com.
Não como eu quero.
Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
veneno de letra,
bolero. Ou menos.
Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
e sozinho.
( Paulo Leminski )
*
essa idéia
ninguém me tira
matéria é mentira
( Paulo Leminski )
*
não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase
( Paulo Leminski )
*
amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o
( Paulo Leminski )
*
moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia
( Paulo Leminski )
*
vazio agudo
ando meio
cheio de tudo
( Paulo Leminski )
*
o barro
toma a forma
que você quiser
você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer
( Paulo Leminski )
*
Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.
( Paulo Leminski )
*
Arte do Chá
ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo
ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
( Paulo Leminski )
*
Acordei bemol
Tudo estava sustenido
Sol fazia
Só não fazia sentido
( Paulo Leminski )
*
amar é um elo
entre o azul
e o amarelo
( Paulo Leminski )
*
dia sem senso
acendo o cigarro
no incenso
( Paulo Leminski )
*
você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo
nem fale em amor
que amor é isto
( Paulo Leminski )
*
atrasos do acaso
cuidados
que não quero mais
o que era pra vir
veio tarde
e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz
( Paulo Leminski )
Conheça também:
Paulo Leminski – Wikipedia
(Seleção de Fabio Rocha - A Magia da Poesia)
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Demais,demais,demais…Precisa dizer mais?
Pingback: Madrugada… « No Toitiço: Barbearia em manhã de Sábado
Todas as vezes que “venho” aqui, sempre que saio sinto que vou acompanhada,
e tão plena de luz.
Muito obrigada.
Pingback: haikai e poetrix - Qual a diferença? O que é?
A poesia do Leminski tem duas grandes vantagens: são curtas e não são nem muito simples e nem muito herméticas. Eis um dos poucos poetas que vale a pena ler.
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fabuloso pena que durou tão pouco dentro do muito que fez
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