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Poema em linha reta – Fernando Pessoa (com vídeo)

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Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
(…)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa )

Fernando Pessoa
(poema digitado e conferido por mim mesmo do livro Poemas de Ávaro de Campos”, edição de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, ps. 234 e 235.)

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Fabio Rocha

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Um apaixonado pela poesia. (saiba +)


14 Respostas

  1. Belíssima cena de O Clone, novela de Gloria Perez. Direção de Jayme Monjardim e produção de Sergio Madureira. Parabéns pela sensibilidade em anexar.

  2. Lucia Helena

    Interpretação deslumbrante de Osmar Prado!
    Não me canso de ver…que coisa linda!!!
    Fernando Pessoa…dizer mais o que!…

  3. Cauan

    Fabio,

    Minha dúvida é: esse poema está completo? As reticências entre parêntesis no meio do poema fazem parte do original ou é parte de alguma edição?

    Abraços,

  4. Poema em linha reta – Fernando Pessoa (com vídeo) http://t.co/VRyysvoA via @fabiorochapoeta

  5. Marieta Veras

    Adorei!!!!

  6. [...] com vídeoDe Elisa Lucinda: Só de Sacanagem – com vídeo na voz da poetaDe Fernando Pessoa: Poema em Linha Reta - com vídeo(Versos originais, sem erros nem falsas autorias.)Leia outros poemas sobre outros [...]

  7. jailton

    Um colírio para os nossos olhos, música para os nossos ouvidos. Atuação soberba de Osmar Prado. Todos os que gostam de arte precisam ver. Parabéns pelo post.

  8. É… há vida inteligente na teledramaturgia. Cena primorosa desse monstro que é Osmar Prado. O comentário final do Reginaldo Farias é impagável.

  9. adorei esta poesia – e vcs, tambem?

  10. Poema em linha reta – Fernando Pessoa (com vídeo): Poema em linha reta Nunca conheci quem… http://t.co/uPxlKA3o

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